segunda-feira, novembro 23, 2009

Trans-Bagunça

Atreveste dizer uma coisa e depois outra, sem saber que toda essa exclamação me pôs fora do ar.

Atreveste colocar a sua mão na minha mão, dando passos em falso, até cessar rapidamente o que chamamos de dança.

Atreveste a por a mão dentro da minha calça, passando pelo sorvete que escorria sem calda, enquanto o filme do Antonioni estava monótono.

Atreveste a dar colher de chá aos sobre-saltados da vida, e assustou-se quando a lanterna como flecha apontou para o seu rosto acusado no escuro do cinema.

Atreveste a dar propósito a uma bagunça e confusão de palavras e atreveu transcender chamando isso de amor.

Atreveste a presumir que a caminhada pela Cinelândia após o show do Caetano acabava em bar, e associar que bar acabava em cama.

Atreveste a correr para fazer sinal a um quatrotrêsdois laranja, que cortou e varou como bala por uma 28 de Setembro silenciosa, a espera do barulho e luzes das armas trans-saltantes.

Atreveste a desmanchar o segredo da porta e transar ali mesmo, na cozinha, enquanto seus pais dormiam de boca aberta no sofá da sala, sobre a batuta e iluminação do filme do Antonioni que sobrava na TV.

Atreveste dizer ao acordar, inquieta por me ver escrevendo que minha escrita era pretensiosa, pois não tinha nexo escrever sobre ontem e que era muita cara de pau achar que escrever sobre uma bagunça sem propósito e umas palavras confusas daria um bom texto.

E não me atrevi lhe tirar a razão.

terça-feira, fevereiro 10, 2009

Quarto Escuro

O mundo dos mortos era assim: uma grande sala com paredes escuras cheio de cadeiras enfileiradas, como um cinema sem tela.
Aparentemente todos os assentos estavam ocupados, embora houvesse alguns que estavam vazios, sempre havia alguém do lado de alguém.
Havia uma porta de madeira no fundo. Através dela se via um hall. Piso branco de mármore e uma escadaria com um corrimão de madeira talhada de modo elegante.
Na parede em frente havia uma enorme janela de vidro, pela qual a luz esbranquiçada de um dia nublado brilhava intensamente.
As pessoas que estavam naquela sala não estavam mortas fisicamente, estavam apenas mortas. Eram mortas-vivas.
Viviam fisicamente até que a vida física se esgotasse.
Como o mato que cresce em terrenos vazios.
Uma vez havia uma senhora que vivia em um apartamento. Um dia ela se deitou em sua cama, e morreu.
Passaram-se 30 anos. A luz foi cortada e a água também.
O zelador resolveu arrombar a porta do apartamento, julgando que estava abandonado. Encontrou o corpo na cama, depois de 30 anos.
Quem estava no seu enterro? Quem teria rezado por ela? Alguém acaso levou flores?
Lembrem-se de nós. Nós que somos comuns e sem importância. Nós que estamos na escuridão.
Vemos o quanto brilham, vocês. Que com o olhar iluminam as estrelas. Uma palavra gentil é como a brisa. Um abraço, faz o sol descortinar a manhã. Com um beijo colorem o mundo.
Lembrem-se de nós, para que vivamos. Por um segundo, por toda a vida.
A vida está nos outros.

terça-feira, dezembro 02, 2008

Que é do tipo cara valente

Não olhou para trás, tamanho o tamanho do futuro que quis.
Mal pra frente ele olhou.
Sacou seus óculos escuros, manchados com vontade de não ter.
Respirou e partiu.
Repartiu.

Até hoje anda sem, sempre, semântica, sêmen, semelhante...
... semáforo!

Anda vermelho achando ser verde...

terça-feira, novembro 25, 2008

Cenas Imemoriais de Afonia

O tempo parecia ser nulo... Era o intenso relato do jamais esquecido; O olhar disfarçava o reduto e este era preenchido apenas pelo sensível. Aquela empoeirada história de sempre tinha lugar outra vez.

As peles expostas, os rostos suados, as respirações insones. Tudo indicava aquilo que ela não desejava entender ou mesmo saber. Esteve ela ali parada defronte com os lábios retesados? E... seu grito tinha mesmo ecoado como um tamboril desafinado e desafiante pelo recinto? Pois bem, o grito surdo tinha sido desvencilhado. Assim, os passos audíveis cruzaram o espaço e a porta se fez fechada no absurdo.

Se algo pudesse ser de fato pronunciado, teria dito que já considerava tal calamidade. Sordidez e veleidades estão presentes pelo mundo e ela, sensatamente, não se negava uma parte da constante da vida. No entanto, a surpresa conseguiu atingi-la não como um raio, como muitos imaginariam, mas sim como uma escopeta, ou seja, de forma ruidosa e franca.

Por fim, lágrimas jorravam ao tique-taquear insistente do relógio da sala-de-estar. Melhor seria não estar e nem ser, pensava. Como seria bom não sentir esse latejar enjoativo na cabeça, nem o fôlego inconstante no peito? Se houvesse como, diria que o pior, sem dúvida, era mesmo suas costas que sentiam tristemente o peso acumulado da idade do mundo e a faziam querer desmoronar e permanecer no chão.

O imbatível momento de sobressalto havia passado, mas a angustiosa sensação que o sobrevêm não. Sentia uma satisfação enfastiável em tomar para si o tempo de deliberações, já que os pequenos deletérios amorosos começavam a corroer a insidiosa bravata que havia vestido ao acordar todas as manhãs. Teria ela a coragem de se relegar ao aceite de sua nova condição? Teria, enfim, que sair por detrás das sombras e recorrer à amuada vida de celibatária?

Eram tamanhas as decisões que sub-repticiamente se faziam presentes e eram de tal ordem que um pequeno espasmo a fez contrair o corpo num indiscreto arrepio. Infelizmente, o sinuoso caminho da alcova não poderia deixar de ser realizado e a vileza de seus companheiros não poderia também deixar de ser cooptada.

O ambiente era puro ruído e nenhum sentido, ou melhor, era indisfarçavelmente o anteposto de uma quimera. Se fez-se outrora a pantomínia, em nada o indicava o presente instante. Havia apenas dois olhares perdidos procurando abrigo num peito desamparado. A espuma das horas e das bocas aflitas não indicava o torpor e o rompante que se instaurava no ensejo à vista. Contudo, era inegável a sutileza de cada movimento e de todo o acento reverberado.

O inocente expectador se abominaria com enfadonha troca de gentilezas. A intrigante amabilidade era causada por um indefectível plano que se fez corrente minutos antes da cena anterior. De nada adiantaria, imaginou a pequena, chegar com pedras e porretes à mão se o que desejava era arrancar o mais profundo urro de dor dos tratantes. Usaria sim de pelica e pelúcia, bem mais eficazes em tal situação, para chegar à conclusão almejada.

Pulemos, então, a parte que transcorre e sigamos para um trecho mais atraente dos acontecimentos. Após a afável troca de cortesias, restou apenas o assaz encoberto elefante branco a ser debatido. Temendo ser traída por seu obstinado pesar, cobriu a boca repentinamente fingindo conter um espirro. O vácuo de tempo transposto pelo gesto não pode ser preenchido por outra coisa senão a confissão do ato que, convém dizer, era exatamente o que ela pretendia.

Lágrimas, pedidos de perdão, gritos de ódio, ameaças, tudo teria se tornado realidade se a torrente do Destino não tivesse desviado o percurso de sua sina. Em um instante apenas, como anteriormente, os meandros da vida se fizeram presente e mudaram a direção dos acontecimentos. O coração, antevendo e temendo sofrer tamanha agressão, susteve-se e as pernas, bambas e cansadas, tombaram ao peso irresoluto da duração ordinária de sua existência, levando, dessa forma, aquele que não poderia ser perdoado a rés-do-chão.

Sem dignidade, malicia ou auto-estima, ela debandou em direção ao combalido corpo com lágrimas de preocupação aos olhos. Toda a tórpida dor, todo fogo acre do ódio, todo o aforismo guardado na ponta da língua foi contido graças ao túrbido estado de nossa personagem. Digo contido para não ter de dizer exaurido ou até mesmo exorcizado, já que passado o momento de preocupação, isto é, dias após, quando o seu finório amado encontrava-se em melhores condições, fingiu nada ter sucedido além dessa atordoante enfermidade.

Não se sabe até hoje se esqueceu no susto ou se perdoou no temor, entretanto, faz-se mister destacar que vive bem, saudável e lépida ao lado dele, sem nunca voltar para casa antes de avisá-lo com horas antecedência para não causar mais nenhum mal-estar ou moléstia, seja no mesmo ou seja, mais provavelmente, entre ambos.

sexta-feira, junho 20, 2008

Cinha das Neves

Hoje faz frio!
Mas só ontem, à noite, pude senti-lo
Na voz fraquejada, de frases manchadas
Na bela certeza, não fosse tristeza

Hoje faz frio...
Mas quem disse que o tempo pode atingi-lo?
Faz rio dos olhos, arrepia seus poros
Caminha apressado - seu bem está salvo!

Hoje faz frio?
Que a neve congele a cidade do Rio!
Eu derreto mil prédios com um só sorriso!
Três meses sonhei pra explodir esse brilho

Não, Magrelinha!
Cansei desse frio!
Te aquece por dentro
Que eu me aqueço contigo...

sexta-feira, maio 23, 2008

Por Aí

Andava lá por Botafogo, depois da tontura que é sair do Metrô, passava por uma escola municipal e do lado de fora eu ouvia as crianças no pátio do colégio cantando a Aquarela do Toquinho. Não sei se por conta própria, parecia algum tipo de atividade proposta pelo os professores. Normal! Andava lá, eu, pelo Centro, depois da tontura que é caminhar entre pessoas apressadas. Passava por uma faculdade de Direito enquanto Nelson Sargento cantava com seu estilo malandro um samba antigo. Só alguns poucos velhos prestavam atenção enquanto os alunos iam e vinham como se nada os tocasse. Normal! Ando sempre por Copacabana, naquela tontura que é avistar o mar sem ter tempo de desfrutar, passam por mim pessoas insípidas e ignóbeis. Das quais me protejo colocando no fone de ouvido o cd da Nara Leão, imediatamente brota em mim um sorriso indescritível. Normal!

De tanto andar por ai sempre fui um péssimo aluno, no colégio, na faculdade, nas classes de piano, nos relacionamentos. Prestei atenção nas coisas que me tocavam e deixei de tocar o lado prático da vida. Ninguém sobrevive... Ou pelo menos, todos deveriam ter a sensação que já perdemos a essência e a direção da nossa sensibilidade, neste pragmatismo absoluto que o mundo se tornou. Ninguém sobrevive ao pragmatismo desta aurora. Nem a Juventude, nem o Oriente e nem a Aurora.

De tanto andar por ai eu vi Nelson Sargento, vi o Monarco, o Chico, o Caetano, Gil, a Bethânia, João Gilberto, Adriana Calcanhotto, a mpb e as bandinhas inglesas. Vi bons amigos tocarem em suas casas sinfonias belíssimas que ninguém nunca poderá ouvir, estas permanecerão inéditas, sem crédito no costumeiro esquecimento.

Neste mesmo andar eu vi Eduardo Galeano, Saramago, Ferreira Gullar, Lygia Fagundes, a literatura. Vi bons amigos escreverem romances irresistíveis, criativos e reflexivos que ninguém nunca poderá ler, permanecerão escondidos e inatingíveis, na falta de vida que a gana tem.

De tanto andar por ai quase fiquei cego em tamanha escuridão, em tantos impossíveis, quase que me sufoco pela poluição de gás lacrimogêneo que soltaram e não lembraram de recolher. Por aí, quase fico louco e abraço árvores, quase grito e peço para que gritem. Quase tenho raiva, mas por esta se tornar silenciosa quase sempre tenho depressão.

De tanto em tanto, abandonei o pragmatismo e fiquei apenas com as músicas, os filmes, os amigos e os livros que me fazem respirar. Fiquei com aqueles que eu não pude ver e apenas senti. Aqueles que com uma pontinha de dor eu vejo. Esses eu vi e tenho certeza que eles também me viram e me virão

"É que eu tô sozinho há tanto tempo que me esqueci o que é verdade e o que é mentira em volta de mim" - Cazuza

quarta-feira, maio 07, 2008

Eu nunca li Proust. Pergunto-me se algum dia lerei.

Você está sentado numa cadeira relativamente confortável.
Você estende a mão para pegar um livro na prateleira à sua frente. Você avalia que é melhor escolher um volume não tão sério – talvez algum romance policial, ou uma aventura fantástica daquelas derivadas d’O Senhor dos Anéis, qualquer coisa mais ou menos familiar que alivie um pouco o peso das coisas.
Mas, na procura por esse exemplar das agradáveis simplicidades da vida, você se depara com uns outros tantos – esses, sobre a sobriedade da vida, sobre o tempo perdido, sobre os miseráveis da França, sobre as veias abertas, sobre solidões centenárias ou sobre sertões.
E o peso aumenta.

Em telas brilhantes de computador – janelas –, você vislumbra um mundo de potências. Você olha por um buraquinho de fechadura e descobre que, se empurrar a porta, você cai num precipício, e o que era pra ser rede não vai te segurar, só vai te fazer cair sem previsão de chegar ao fundo.
Se você resolver abrir a janela, não virá nenhuma brisa fresca sugerindo as coisas simples e agradáveis da vida: um vendaval vai devastar seu quarto de dormir, seus livros vão cair das prateleiras e os papéis em que você escreveu se perderão na fresta debaixo do armário. A cama será desfeita e só depois que você se acostumar à nova (des)ordem conseguirá fechar os olhos à noite.
As janelas do computador só te mostram que as investigações de Holmes e Poirot e as épicas jornadas de Harry e Frodo não passam de uma simples caminhada do seu quarto até o banheiro, para lavar o rosto sonolento e tentar lembrar o que estava sonhando antes de acordar.

Quisera você que raposas de fogo fossem meras enganadoras, que a rede te segurasse quando os desvios do caminho te fizessem pegar a trilha errada e cair no precipício: mas a verdade é que tu nunca vai ter o culhão de ir em busca do tempo perdido. Ou, pelo menos, nunca vai ter tempo pra ir em busca do tempo perdido.
Entre o nascimento de Cristo e a morte da Isabela Nardonni há 2008 anos, mas no último piscar de olhos nasceram sabe-se lá quantas mil crianças, morreram outras tantas e aquela estrela que brilha no céu já não deve mais existir. O mundo evoluiu mais nos últimos cem anos do que em toda a história da humanidade, e você passou os últimos cinco minutos lendo coisas que você já sabia.
Porque quando você tenta aprender aquilo que ainda não sabe, você descobre que nunca vai conseguir suportar o peso da vida, e que o mundo inteiro sempre vai lhe escapar por entre os dedos.

Esses dedos – os mesmos que não conseguem conter o mundo – vão viajar sobre as lombadas de diversos livros; vão se insinuar sobre os tais sertões, solidões, miseráveis, veias, machados; tentarão conter o tempo perdido.
Mas você vai acabar se decidindo pelo volume que conta as aventuras de um garoto por uma terra mágica, aquele mesmo que você já leu umas duas vezes.
Você vai se levantar da sua cadeira relativamente confortável e se deitar na cama desfeita, tentando fingir pra si mesmo que nada disso importa, forçando-se a acreditar que o mundo é leve, e vai dormir agarrado ao travesseiro e à ilusão de que nem tudo lhe escapa por entre os dedos.