Ao ouvir minha irmã se lamuriar no quarto e chorar em voz de alto desespero, fico no contente sofá pensando que as queixas dela sobre a vida são as mesmas que as minhas. As minhas de hoje, de ontem, de que ao experimentar a vida notei a falta de sentido. Pensar e pesar no porque dessas tremendas tolices que nos propomos. Ela quer diversão e diz que: com medicina nunca terá e viverá a vida num trabalho chato. Você conhece o discurso, já me ouviu tantas vezes por aqui. Será de família, será de mundo? Será meu e dela, será do Caetano, será só meu e ela me entendeu? Lúcido, louco, gordo estou com certeza absoluta...
Será que nunca mudei, sempre o mesmo, invés de uma pedra na vidraça alheia que antes adorava jogar, now a mesma pedra, but em meu vidro.
Como o caco daquele espelho do “Avant la Paine”, será que cato os cacos?
Será que acabo de ler o Caio antes dele acabar comigo? Será que Caio e voô, ou Caio e calo?
Será que mato ou morro? Não tenho muitos entraves além desses dois, como todo mundo e minha irmã, chora, chora, chora, chora. E me dá uma vontade de chorar, me seguro.
Vou dormir, evitar as lágrimas, já não é tristeza é o peso disso tudo, é o love apesar, a pesar, há pesar. Hilda Hilst tem razão.
Acho que aqui em casa, em casas, não estamos acostumados a terminar as coisas; eu mesmo, nunca termino. Poderia ter um emprego melhor, faculdade melhor, amores melhores eu poderia ter tido, mas nunca procurei... Depois que as coisas acabam, dou graças e belê. A vida é uma só, então devemos viver desesperadamente. Ou melhor, entendemos que é uma só, devemos então viver sem nos preocupar. Ou melhor ainda, devemos viver como quisermos. Mas não dá, em alguns momentos tem sempre alguém que enxerga que estamos fazendo “errado” e fala, não respeita nossa opinião. Ora, calem-se os sábios, os tolos, os otários e os fodas.... quem fala agora sou eu, e isso passa, tudo há de passar. O que resta, resta em outros, em mim cinza, pó, um esqueleto qualquer de uma dívida qualquer nunca paga. Sofremos quando pensamos em nascer e levamos até o último minuto essa dor, esse pranto, e toda essa beleza resultada do que provemos do desespero que é a vida. Esse resultando da ação da gravidade sobre os corpos, que nos assola. Essa grande pedra do lagar ligada pelo fuso à viga, que temos que carregar.
Tenho tantas certezas que criei, contrárias a tantas outras certezas que ouvi e me pareceram tolas: tenho certeza nenhuma. Mas quem não tem nenhuma certeza não tem opinião, não tem nada, nem mesmo é respeitado. Ou fale de uma coisa ou de outra, mas fale, fale da certeza com certeza, de que a vida é um punhado de incertezas e dessas certezas globais você não tem certeza nenhuma, pois você tem suas próprias certezas. Besteira, mentira, papo para beijar na boca alheia. Temos nada, nem mesmo essas letras. Ela é que nos tem, bem sabemos disso. Já é uma certeza, não temos como escapar das sentenças. Nietzsche escapou? Quem sou eu? Minha irmã, tu a quem que escrevo... Quem somos? Que certeza você me trará do ser, logo mais no bar?
Ela chora no quarto e eu não sei se choro de infeliz ou de contente... por que esse querer desigual e infinitivamente pessoal? Meu, dela, do Caetano. O que hacer sobre tudo? Sobre tudo um pouco, talvez? Dulcíssima prisão: é quanto tenho você em meus braços, e esta é a certeza que quero carregar antes de ir dormir, pois deve fazer alguma diferença nesta vida morrer feliz.
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