Quarta-feira, Março 19, 2008

Opereta número 9

Para Ana Clara


Na noite de sexta-feira, a imensidão daqueles objetos era igualmente proporcional ao vazio do quarto, onde todas as formas tinham variações remanescentes de uma decoração antiga. A porta, por exemplo, media do chão até o teto do quarto uns 4 metros aproximadamente. Dispunha de dois trincos: um no alto da porta que provavelmente nunca deve ter sido utilizado e outro mais abaixo. A janela seguia o mesmo modelo, todavia, esquematizada em quadradões de vidro. Caio dividia a casa de dois andares, cinco quartos, um banheiro e uma cozinha com outros vizinhos. Esses em sua grande maioria, eram artistas desempregados descendentes de paises pobres da América do Sul. O lugar era habitado por pintores, professores particulares de espanhol, malabaristas de sinais fechados e, quando não restava opção: vendedores de drogas para pequenos consumidores. Tentavam sobreviver na ilegalidade sem conseguir trabalho fixo ou visto de trabalho. Ainda que inconformados com as leis brasileiras, duras para os imigrantes ilegais, não cogitavam voltar para seus paises. Muitos anos antes, a casa havia sido um hotel administrado por “Dona Nega”, uma mulher solitária que havia transformado a moradia da família em estabelecimento comercial. Fora isso, uma filha, a única coisa que seu primeiro e último namorado deixara antes de fugir. Os hóspedes eram principalmente estudantes de medicina oriundos de outros estados, faziam residência em um hospital que havia na redondeza. O hotel havia sido fechado pelos militares durante a ditadura por suspeita de abrigar comunistas e estudantes simpatizantes da esquerda socialista. Hoje, anos depois, funciona uma biblioteca criada pelos moradores do bairro e uma pensão sob administração de Lara, filha de Dona Nega, que nada faz além disto.


Caio aproximou-se da janela e apenas conseguia enxergar as luzes da cidade, luminosas e insossas, azuis e amarelas, piscando e ascendendo, sem nenhuma variação que o agradasse. Não havia muita diferença entre os bairros que avistava, eram apenas pontos de luz do alto de Santa Tereza. Durante muito tempo ficou imaginando o que acontecia lá embaixo. Adorava passar horas na janela pensando, já que nem sempre tinha paciência para ler ou uma televisão para se distrair. Filosofou um tempo, pensando que a imaginação é um grande limitador, mas que não pensar era ainda mais. Parou de pensar que pensava e acendeu a última ponta de cigarro vencido que jazia quase morto num daqueles copos aproveitáveis de requeijão. Fumou rapidamente como sempre fazia, tragando o fumo sem gosto, distraído pela fumaça que caminhava lenta pelas barras de ferro da janela. Enxergava pelo o reflexo do vidro o que não havia notado anteriormente: o vazio do quarto, ocupado apenas por um colchão sem cama constantemente desarrumado, livros estéreis jogados pelo chão e um mini guarda-roupa. A solidão em segundos desferiu um golpe fundo naquela noite silenciosa e sentiu-se esgotado daquela vida, relembrou com saudade da vida que não teve com Ana. Correu para o armário, remexendo tantas roupas quanto fosse necessário até encontrar alguns postais e cartas passadas. Relia-os enquanto o Rio de Janeiro desmanchava diante da gigantesca janela e a Lapa escorria por seus arcos. "Postais antigos nunca mais deveriam ser relidos. As palavras possuem data de validade, mas a solidão não se esgota por conta própria". Tentando resistir, Caio apelou e mendigou: “calma, isso passa”. Não adiantava, não remediava o silêncio. Repetia desesperado para si, como uma reza: “calma, calma”. Experimentava desacelerar os seus desejos impacientes; perdia, não tinha disciplina alguma. Isso sempre acontecia, necessitava deitar no colchão jogado ao chão, entregue à solidão. Levantou, caminhou até a vitrola apoiada num vazo de cerâmica sem planta, colocou o disco. Enquanto a agulha encontrava a linha, jogava-se de volta ao colchão para ouvir a música que sempre ouvia nesses momentos.


Imaginou, como sempre, Ana e o amor que nunca foi vivido e por isso não passava de uma promessa em seu imaginário: um gesto sem palavras, sem anunciação, só o desacordo. Imaginou aqueles dedos eternamente claros alongando-se e encontrando sua orelha. Transformando-se numa concha, tampando seu canal auditivo, enquanto, na outra mão restava a inércia, o silêncio e a sensação de vazio. A mão direita sossegada tocou as teclas frias do piano que mudo fartava-se de esperar, tornava todas as notas justamente proporcionais e concordantes entre si. Preencheu de música o que era oco entre eles. Aguçava os sentidos postando ele em estado de graça, entre o adágio dos dedos esquerdos e o andante dos dedos direitos. Fechando os olhos, ele percebeu que os tornozelos gelavam, depois vertiam suor. A língua tocava os dentes desordenadamente, ficando exposta na boca meio aberta, enquanto as duas mãos deixavam tudo pela metade. Moderato. Restava na saliva um gosto de ferro em água, sentia o dissabor metálico das cordas do instrumento.

A mão deslizou pelo seu rosto percorrendo todas as notas do corpo que ganhava vida, tocando com as pontas dos dedos em seu peito até cair fagueira em seu pênis que latejante e impaciente já esperava por fora da calça. Vivace. A música dos dedos direitos criava a dança vibrante dos dedos esquerdos, entrelaçados no sexo masculino, enquanto seu ouvido pôde escutar a opereta manca que fez a sua mente perder a consciência. A razão que sempre agira nela evitando a possibilidade de amar consumia o equilíbrio dos dois. Foi a sensibilidade do toque que deixou tudo nítido. Era a razão bruta de um e a frágil do outro sempre os mantinham em contraposto. Na medida em que as mãos tocavam seus instrumentos, ele sabia que o andamento desta opereta nunca seria nem muito grave como ele e nem muito presto como ela. O coração que antes da música não pulsava e até ria da pretensão de bater, agora ficava angustiado quando percebia as notas finais. O passo da mão esquerda aumentava diante do compasso da música que diminuía, aproximando-se delicadamente do fim. Restava apenas uma nota em quatro tempos, o suficiente para investir contra o coração um toque de dor. Era como uma lança que espetava de dentro para fora, abrindo seu peito e o expondo ao ridículo: o absurdo que sentimos quando nos entregamos. Estava acabado. Infelizmente a música acabou e o seu pau estava murcho, foi o que sobrou do descompasso que é amar uma promessa que nunca se realizou.

Abriu os olhos, esticou o braço para alcançar um livro qualquer. Rasgou uma folha de papel e limpou calmamente o gozo que lambuzou sua barriga. Foi ao guarda-roupa, tirou um vidro com comprimidos e caminhou até a garrafa de água perto da janela. Tomou 26 comprimidos de Xanax que restaram de seu último relacionamento amoroso, tirou a agulha do disco e dormiu para nunca mais acordar.

1 comentários:

vinicius disse...

o jardim não te merece