Você está sentado numa cadeira relativamente confortável.
Você estende a mão para pegar um livro na prateleira à sua frente. Você avalia que é melhor escolher um volume não tão sério – talvez algum romance policial, ou uma aventura fantástica daquelas derivadas d’O Senhor dos Anéis, qualquer coisa mais ou menos familiar que alivie um pouco o peso das coisas.
Mas, na procura por esse exemplar das agradáveis simplicidades da vida, você se depara com uns outros tantos – esses, sobre a sobriedade da vida, sobre o tempo perdido, sobre os miseráveis da França, sobre as veias abertas, sobre solidões centenárias ou sobre sertões.
E o peso aumenta.
Em telas brilhantes de computador – janelas –, você vislumbra um mundo de potências. Você olha por um buraquinho de fechadura e descobre que, se empurrar a porta, você cai num precipício, e o que era pra ser rede não vai te segurar, só vai te fazer cair sem previsão de chegar ao fundo.
Se você resolver abrir a janela, não virá nenhuma brisa fresca sugerindo as coisas simples e agradáveis da vida: um vendaval vai devastar seu quarto de dormir, seus livros vão cair das prateleiras e os papéis em que você escreveu se perderão na fresta debaixo do armário. A cama será desfeita e só depois que você se acostumar à nova (des)ordem conseguirá fechar os olhos à noite.
As janelas do computador só te mostram que as investigações de Holmes e Poirot e as épicas jornadas de Harry e Frodo não passam de uma simples caminhada do seu quarto até o banheiro, para lavar o rosto sonolento e tentar lembrar o que estava sonhando antes de acordar.
Quisera você que raposas de fogo fossem meras enganadoras, que a rede te segurasse quando os desvios do caminho te fizessem pegar a trilha errada e cair no precipício: mas a verdade é que tu nunca vai ter o culhão de ir em busca do tempo perdido. Ou, pelo menos, nunca vai ter tempo pra ir em busca do tempo perdido.
Entre o nascimento de Cristo e a morte da Isabela Nardonni há 2008 anos, mas no último piscar de olhos nasceram sabe-se lá quantas mil crianças, morreram outras tantas e aquela estrela que brilha no céu já não deve mais existir. O mundo evoluiu mais nos últimos cem anos do que em toda a história da humanidade, e você passou os últimos cinco minutos lendo coisas que você já sabia.
Porque quando você tenta aprender aquilo que ainda não sabe, você descobre que nunca vai conseguir suportar o peso da vida, e que o mundo inteiro sempre vai lhe escapar por entre os dedos.
Esses dedos – os mesmos que não conseguem conter o mundo – vão viajar sobre as lombadas de diversos livros; vão se insinuar sobre os tais sertões, solidões, miseráveis, veias, machados; tentarão conter o tempo perdido.
Mas você vai acabar se decidindo pelo volume que conta as aventuras de um garoto por uma terra mágica, aquele mesmo que você já leu umas duas vezes.
Você vai se levantar da sua cadeira relativamente confortável e se deitar na cama desfeita, tentando fingir pra si mesmo que nada disso importa, forçando-se a acreditar que o mundo é leve, e vai dormir agarrado ao travesseiro e à ilusão de que nem tudo lhe escapa por entre os dedos.
Quarta-feira, Maio 07, 2008
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5 comentários:
pesa e pesa pra caralho porque, entre uma monstruosidade e outra, perde-se nacos de humanidade e gente se pergunta, no escuro, se também em nós se esconde aquele bicho sem nome, menos que bicho, espreitando. deita-se pessoa, acorda-se... outra coisa menor e menor. talvez neil gaiman tenha um nome pra essa coisa.
mas o proust é bom pra insônia, e nem precisa marcador de página :P
"Mas você vai acabar se decidindo pelo volume que conta as aventuras de um garoto por uma terra mágica, aquele mesmo que você já leu umas duas vezes."
Eis a alienação que tanto falo nos últimos dias.
Gostei bagaray do teu texto meu amigo! mas prometo refazer esse comentário.
Só posso entrar agora na questão Isabella. A peversidade é tamanha nesse mundo que daqui a pouco haverá casos piores e esse cairá no esquecimento. Como ocorreu com o João Hélio!
E assim, a revolução Vingativa começa e espero que continue!! quem sabe em 2012 isso acontece? hein, hein?!
=P
abração!
Desacreditar não é uma idéia aprazível. Por mais que alguns momentos tornem as ilusões meros objetos de observação, distantes e quase inalcançáveis, ainda prefiro dormir agarrada ao travesseiro.
Me forço a acreditar que o mundo tem de ser leve, porque sei que não agüento o peso da vida: talvez suporte por alguns dias, mas, logo depois, preciso sonhar de novo.
Não é uma questão de alienação: não exclui momentos de experimentar a inutilidade da rede, diante do precipício. Mas, envolve avaliar a melhor hora de se lançar na imprevisibilidade de chegada ao fundo. E, ainda assim, acabo, por vezes, caindo sem (ou por) querer... Tudo por me importar demais. Tudo porque as bordas não são meu lugar.
Relaxa.
Ou tenta.
Com afeto.
Então amigo, é que na verdade precisamos calhar todos esses nossos escrupulos. Veja bem, ler Proust é renunciar a paz de espírito. Aliás, quem quer saber a verdade, quem quer ir atrás da verdade, precisa renunciar a paz de espírito. Eu já o fiz várias vezes, e mesmo nessas várias vezes parei antes do fim, porém a dor se sente até o fim. O ácido que o Edward Norton joga no braço em "O Clube da Luta" é para sentir a dor até o fim.
Enfim, isso é para compormos no bar, mas não saio sem antes deixar algo:
Homens! Homens! Sempre tive a impressão que nasci no tempo errado... Sabem como é? Nunca nesse tempo... Nunca nesse presente... O tempo sempre errado... Sempre errado! Minha juventude foi no tempo errado... Escolhi a profissão errada... O que de fato queria ser? Não sei... Talvez nunca saiba. Será que só eu? Homens... Homens! Me sinto como Proust, ou tarde demais ou cedo demais... Nunca no tempo certo. Talvez se tivesse nascido no séc. XVII, hummmm... ou no séc. XVIII? Talvez no tempo de E o vento levou? Que amor lindo! Ou em 1917, em plena revolução russa... Os trabalhadores tomando o poder, o mundo em nossas mãos... Quem sabe se tivesse nascido em Cuba, lutado ao lado de Fidel, de Che... Mesmo que tivesse morrido, não importa. E se eu tivesse ousado mais naquela tarde com Helena... Ela parecia querer ouvir... Mas eu ... Ou só colocar minha mão sobre a dela... Acho que seria o suficiente... Ela entenderia tudo. Sempre no lugar errado... Sempre a atitude errada... Sempre no tempo errado.Proust tinha razão... Ou cedo demais... Ou tarde demais... Nunca no tempo certo. Sempre tarde demais ou cedo demais. Acho que o que quero, o que procuro é o tempo... Eu quero o tempo de novo. Alguém pode me dar o tempo? Alguém tem o tempo? Ah, como eu faria diferente, como eu mudaria.
Esse seu segundo paragrafo ficou ótimo
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