Atreveste dizer uma coisa e depois outra, sem saber que toda essa exclamação me pôs fora do ar.
Atreveste colocar a sua mão na minha mão, dando passos em falso, até cessar rapidamente o que chamamos de dança.
Atreveste a por a mão dentro da minha calça, passando pelo sorvete que escorria sem calda, enquanto o filme do Antonioni estava monótono.
Atreveste a dar colher de chá aos sobre-saltados da vida, e assustou-se quando a lanterna como flecha apontou para o seu rosto acusado no escuro do cinema.
Atreveste a dar propósito a uma bagunça e confusão de palavras e atreveu transcender chamando isso de amor.
Atreveste a presumir que a caminhada pela Cinelândia após o show do Caetano acabava em bar, e associar que bar acabava em cama.
Atreveste a correr para fazer sinal a um quatrotrêsdois laranja, que cortou e varou como bala por uma 28 de Setembro silenciosa, a espera do barulho e luzes das armas trans-saltantes.
Atreveste a desmanchar o segredo da porta e transar ali mesmo, na cozinha, enquanto seus pais dormiam de boca aberta no sofá da sala, sobre a batuta e iluminação do filme do Antonioni que sobrava na TV.
Atreveste dizer ao acordar, inquieta por me ver escrevendo que minha escrita era pretensiosa, pois não tinha nexo escrever sobre ontem e que era muita cara de pau achar que escrever sobre uma bagunça sem propósito e umas palavras confusas daria um bom texto.
E não me atrevi lhe tirar a razão.
Segunda-feira, Novembro 23, 2009
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